A INDÚSTRIA DA PORNOGRAFIA FINALMENTE RESOLVEU PRIORIZAR O PRAZER DE UM DE SEUS PRINCIPAIS PÚBLICOS: NÓS, AS MULHERES

Você se lembra como descobriu o que era o sexo? Para muitos de nós, não foi com a escola, nem com os pais, mas sim com o pornô. A pornografia virou a educação sexual improvisada das crianças. Como disse Jameela Jamil, é como aprender a dirigir assistindo Velozes e Furiosos.

Se o pornô é a nossa educação sexual, o que ensinamos sobre o papel da mulher? Pornografia significa “escritos sobre prostitutas”. Seja nos livros antigos, filmes icônicos ou plataformas de streaming, a pornografia nunca foi “para mulheres”, mas sim sobre a mulher. Pelo menos até agora!

Graças às conquistas feministas desde o sufrágio até a revolução sexual, as mulheres trabalham, as mulheres se masturbam e as mulheres querem gozar

Empreendendo na Lilit, tenho assistido e trabalhado para contribuir com esse movimento. Nós merecemos sentir prazer e nunca buscamos tantas ferramentas para o nosso bem-estar sexual como nos dias atuais.

AS BRASILEIRAS SÃO VICE-CAMPEÃS NO CONSUMO DE PORNOGRAFIA

Segundo o PornHub, o Brasil é o 2º país no mundo onde mais mulheres consomem pornografia. As brasileiras são 39% dos usuários do principal site de pornografia da atualidade.

Que indústria em sã consciência não passaria a priorizar a satisfação de quase 40% dos seus clientes?

Pois é, finalmente a indústria pornográfica resolveu correr atrás do tempo perdido e priorizar o prazer de um dos seus principais públicos: as mulheres.

Elas saíram do protagonismo das telas para assumir a direção das produtoras, criar novas plataformas de streaming e protagonizar seus próprios conteúdos independentes.

E para descobrir o que essa revolução nos reserva, precisamos lembrar de como chegamos até aqui.

DEFINITIVAMENTE, A PORNOGRAFIA NÃO É UMA “NOVIDADE”

Há cerca de 2 500 anos, os romanos decoravam suas casas com peças eróticas inspiradas em suas famosas orgias e banhos públicos.

Época também da consagração de poetas como Ovídio, que publicou a trilogia A Arte de Amar, em que sugere detalhadamente como ter relações mais prazerosas, com a última obra dedicada exclusivamente ao prazer feminino.

Na Índia, no século II d.C., foi lançado o guia definitivo das posições sexuais, o Kama Sutra, compilado pelo nobre Mallanaga Vatsyayana.

Muitos dos conteúdos eróticos não sobreviveram à censura religiosa em defesa da redenção espiritual, moral e dos bons costumes.

Mas um gênero específico de conteúdo adulto não só sobreviveu, como nunca foi tão consumido como na atualidade: a pornografia. 

A OBJETIFICAÇÃO DA MULHER NÃO É EXCLUSIVIDADE DA PORNOGRAFIA

Infelizmente a objetificação não é uma exclusividade do conteúdo erótico. Seja na arte, na ciência ou nas leis, para a cultura, a mulher é o corpo. Item de consumo, desejo, fertilidade e controle.

Desde a Vênus de Willendorf, a primeira imagem da humanidade datada de 24.000-22.000 a.C., até os dias atuais, a figura da mulher ao longo da história é a representação do olhar do homem sobre o feminino.

As mulheres precisam estar nuas para entrar no Museu de Arte de São Paulo? Apenas 6% dos artistas em exibição no MASP são mulheres, mas 60% das artes de corpos nus representavam corpos femininos…

O nosso corpo vende. Isso não é novidade. E na lógica da pornografia tradicional, quem fica com esse dinheiro não são as mulheres. Os homens produzem para outros homens consumirem.

Linda Lovelace, atriz principal de Garganta Profunda, a primeira produção pornográfica a atingir sucesso comercial com arrecadação de 600 milhões de dólares, recebeu 1 250 dólares de cachê para estrelar o filme.

A PORNOGRAFIA DIGITAL NA LÓGICA DA INDÚSTRIA TRADICIONAL

A inovação na pornografia sempre esteve relacionada aos meios de produção e distribuição desses conteúdos.

O enredo em si e a lógica da indústria dos “romances para homens” se mantiveram iguais: quem perde são as mulheres.

Nada deu mais acesso e anonimato aos apreciadores de pornografia do que os sites de streaming. O Pornhub é um dos maiores sites de conteúdo adulto do mundo. A plataforma de streaming hoje conta com uma média de 100 bilhões de visualizações de vídeo por ano, cerca de 12,5 vídeos pornográficos por pessoa na Terra

O caso de Mia Khalifa mostra que, depois de 50 anos, o exemplo de Linda Lovelace e o seu ínfimo cachê não é exceção e permanece atual.

Mia tinha apenas 21 anos quando assinou um contrato com a produtora de filmes adultos Bang Bros no valor de 12 mil dólares. A sua carreira na indústria pornográfica durou apenas três meses e uma participação em 11 vídeos.

Um de seus vídeos viralizou e a fez ser um dos nomes mais buscados da atualidade nos sites pornográficos, rendendo milhões de visualizações e lucro para as plataformas de streaming e sua produtora.

Apesar do sucesso, a atriz, assim como grande parte de suas colegas, não teve nenhum direito a royalties, participação nos ganhos ou controle da sua imagem

Mia não apenas deixou de ganhar, mas teve prejuízos quando esse mesmo conteúdo viral lhe rendeu ameaças de morte do grupo extremista do Estado Islâmico e uma onda de ódio nas redes sociais. 

PORNOGRAFIA POR E PARA MULHERES: UMA NOVA ERA

Para Erika Lust, produtora, escritora e diretora de filmes pornográficos, a pornografia é política. Em 2007, ela foi pioneira ao começar a criar enredos eróticos voltados para o prazer da mulher – suas plataformas XConfessions e Lustcinema.com focam no prazer da intimidade, do erotismo, na sexo-positividade, na diversidade e na ética.

Quando falamos em “pornografia ética”, não estamos falando de pornografia necessariamente romântica ou suave, e sim sobre um ambiente de trabalho saudável, tendo em mente os limites e direitos dos artistas na cena… É sobre uma pornografia bem remunerada, sem assédio, sexismo, racismo, homofobia e abusos de poder



Na prática, produtoras como a Lust se certificam de que todos os artistas tenham mais de 18 anos, já tenham tido suas próprias experiências sexuais, se conheçam com antecedência, comuniquem as suas preferências e limites, testem negativo para ISTs (Infecções Sexualmente Transmissíveis) e Covid-19, recebam comida saudável e água no set, tenham boas acomodações e voos pagos, se necessário.

ESTÁ EM CURSO UMA REVOLUÇÃO (OU: “FAÇA AMOR, NÃO FAÇA PORNÔ”)

A empreendedora Cindy Gallop, responsável por cunhar o termo “sextech” para categorizar startups que oferecem soluções para sexualidade e bem-estar sexual, lançou o site Make Love Not Porn (MLNP), que ficou amplamente conhecido após uma breve apresentação no TED.

Cindy acredita que uma Revolução Social do Sexo está em curso — e a parte revolucionária não é o sexo, mas sim o “social”

Lançado há 11 anos, o MLNP é uma plataforma de compartilhamento de vídeos de sexo social, com curadoria humana. Seu lema é “O Facebook do Sexo no Mundo Real”: compartilhando aquela área das nossas vidas que nenhuma outra rede social permite.

Por meio do site, os usuários podem enviar vídeos de seus encontros sexuais — e alugar vídeos de outras pessoas. Metade da receita com o aluguel vai para as pessoas que estrelam o conteúdo. O modelo permite retirar os vídeos do ar, se for necessário.

UMA PORNOGRAFIA MAIS JUSTA E TRANSPARENTE

A pornografia independente dá importância aos protagonistas e à sua expressão sexual sem recorrer a clichês, relações mecânicas e atuações estereotipadas.

Além disso, é uma oportunidade de conhecer, interagir com e remunerar as pessoas por trás das atuações de forma justa e transparente

Essa lógica horizontal, sem tantos intermediários, também é uma das razões pelas quais plataformas como o OnlyFans cresceram. Os produtores de conteúdo podem publicar fotos, vídeos exclusivos e conversar por chat com seus fãs.

A plataforma repassa os 80% da receita dos conteúdos para o dono do perfil. O site conquistou as atrizes de conteúdo erótico e apreciadores de pornográfica. Os números impressionam: foram 3,5 milhões de novos assinantes em março, uma menção na música de Beyoncé em abril e 200 mil novos usuários a cada dia de maio. 

De atrizes para consumidoras, a principal revolução da indústria pornográfica atual está em três tendências protagonizadas e lideradas por mulheres:

Finalmente as mulheres estão dirigindo suas próprias produtoras, empreendendo ao criar plataformas de streaming para conteúdo erótico e atuando, produzindo e distribuindo os seus próprios conteúdos independentes. Essas mudanças devem provocar uma revolução na indústria conhecida por colecionar casos tristes como o de Linda Lovelace e Mia Khalifa

Como será a pornografia do futuro? Talvez com mais conteúdos independentes, e menos produção. Idealmente, seguindo a filosofia da pornografia ética. Mas, com certeza, mais igualitária e democrática do que nunca.

Escrito por Marilia Ponte. 
Artigo originalmente publicado no Projeto Draft, leia aqui.

 

 

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