Cinco Anos I

Eu fiz as malas e joguei dentro do carro, antes que qualquer hesitação surgisse dentro da minha cabeça. Uma hora depois, já estava na estrada saindo do Rio para Búzios. Estava escuro na hora que saí, apenas enxergava as linhas brancas da estrada e a lua enorme, iluminando a noite. Parecia que estava sozinha com a lua. Sozinha no carro, meus pensamentos se repetiam. Comecei a ficar cansada. Liguei o rádio. 

Não importava a estação que ligava, as mesmas memórias surgiam. 

- Não é tão simples assim. Eu nunca pensei que quando fossemos entrar nessa juntos nós iríamos montar um negócio. Claramente, eu não pensei que isso iria acontecer. Se eu pudesse, não teria feito isso. Se eu pudesse saber o que ia acontecer... - ele disse, já entregando os pontos. 

- Sabe, Pedro, eu sempre achei que a gente ia acabar tudo de alguma forma. Foi por isso que comecei a ficar com você. 

- Mas eu achei que quando isso acontecesse, eu iria ter certeza disso. - eu podia ver as lágrimas se formarem em seus olhos. 

- Eu tenho certeza do que quero. Mas você tá me confundindo depois dessa conversa. Eu não falei que iria ser simples. 

- Eu não sei - ele falou, resignado. 

De repente, o celular tocou, distraindo minha lembrança - que alívio. Era Gabi, minha amiga que estava me emprestando a casa dela de praia pra dar aquele descanso mental. 

- Oi! Você tá no meio do caminho? 

- Oi, tô sim! Acabei de sair da Dutra. 

- Nossa, que rápida! Pensei que você não viria!

- Você sabe que eu odeio tirar um tempo pra mim. Mas acho que vai ser bom. 

- Sim! Talvez te dê um espaço para pensar melhor. Você passou por muita coisa. Todos nós passamos. Tá tudo bem. Mas olha, escuta... - vi que ela ia começar falar dele e a interrompi. 

- Não, tá tudo bem... Não é que não quero mais falar do Pedro. Tipo, eu não sei nem mais o que falar dele. Tá cansativo. 

- Sim... 

- Apenas aconteceu e a merda tá feita, entende? Você tá sendo muito legal comigo. Passei por tanta coisa. Tá muito recente, sabe? Eu tô tentando manter as coisas tranquilas no trabalho. Você sabe como funciono. Odeio treta desnecessária. 

- Você ainda tá dividindo os clientes com ele?

- Putz, cara. Eu nem sei mais. Eu quero começar a trabalhar sozinha. Mas não sei. Preciso de um tempo para pensar. 

- Eu acho que a casa vai te ajudar muito com isso. Você pode andar na praia todo dia. Sair da loucura do trabalho. Começar a fazer joias recicladas, sabe?Começamos a rir. Gabi sabia exatamente como quebrar o clima. 

- Garota, no dia que você me pegar vendendo miçanga e fazendo colar de concha, faz uma intervenção!

- Haha. Mas então. A porta vai estar aberta quando você chegar. 

- Você tá deixando sua casa na praia aberta? Quê?

- Na verdade, o Felipe tá lá. 

- Quê?! O Felipe?? - ah pronto, pensei.

- Sim... mas ele vai ficar lá por poucos dias. Ele vai te dar privacidade. Prometo. Eu não sei se você viu aquela resenha horrível do restaurante dele, mas ele respondeu. Nossa, deu a maior confusão. Ele precisou também de um lugar pra relaxar.

- Então nós dois vamos virar dois fantasmas tristes se assustando naquela casa linda. - tive que fazer graça

- Garota, para com isso. Você já já vai estar ótima. - ela disse, rindo.

- Claro, tô pronta e ótima pra fazer novos amigos. - o sarcasmo era mais forte que eu. - Opa, peraí que parece que tenho que virar aqui. Acho que tô chegando. 

- Me avisa quando estiver chegando! 

- Aviso! Beijo.

Meu farol baixo iluminava as pedrinhas ao entorno da casa - com aquela arquitetura incrível que a Gabi fazia questão de decorar as suas casas. Dava pra ver a piscina infinita e escutar o barulho do mar, mesmo no escuro. Isso era outro nível de luxo. Tudo que precisava.

Peguei minha mala no porta-malas e fui para a casa, abrindo a porta. 

- Olá?

Eu andei pelo corredor de paredes brancas com várias fotos em preto e brancas. O cheiro era de tinta fresca. Mas lá no fundo sentia um cheiro delicioso de alecrim. Eu fiquei curiosa. Me dei conta que tava doida pra conversar com alguém. Parecia que eu tava tendo conversas imensas comigo na minha cabeça por semanas, mesmo quando eu estava em silêncio. Escutei o barulho do refogado da panela e uma música ambiente no fundo. Aí estava ele. 

- Oi! - cumprimentei, meio sem jeito.

- Opa! Oi! 

- Desculpa! Eu não queria te assustar. Tava tentando me achar nessa casa enorme.

- Eu sabia que você ia chegar hoje, mas eu meio que não vi o tempo passar cozinhando aqui - ele colocou o pano de prato no ombro e foi me dar dois beijinhos. 

- Prazer, Felipe!

- Prazer, Sofia - respondi. 

- Como você veio parar aqui? 

- Ah, eu tava procurando passar um tempo fora da cidade. E a Gabi me ofereceu esse espaço.

Eu não sou uma pessoa tímida, mas também não sou o tipo de pessoa que conta toda sua vida na primeira vez que conhece uma pessoa. Tenho meus motivos. Não sou uma pessoa de papos curtos e superficiais. Mas ele não insistiu no papo. Foi bem respeitoso, fluiu. Talvez eu estivesse imaginando coisas, mas quando eu instintivamente coloquei meus braços nos meus ombros, a voz dele ficou mais baixa. Parecia que toda vez que eu me protegia ele tentava me acalmar. 

- Olha, eu não quero ser grossa nem nada do tipo, mas eu vim pra cá pra ficar sozinha e pensar em algumas coisas, então acho que vou entrando pra arrumar minhas coisas.

- Tudo bem. Se decidir que quer companhia, qualquer coisa tô aqui na sala. Boa noite! 

- Boa noite! 

Eu acordei tarde. A casa estava quieta. Pensei na hora: Felipe deve ter dormido a mais também. Mas quando eu abri a geladeira, tinha dois pratos prontos com uma cara ótima e um bilhete: “Sobras de ontem. Espero que goste!”. 

Liguei a chaleira com a água quente para passar o café, sentei na mesa gigante perto da janela e tirei o plástico em cima da comida. A cada mordida, minha mente viajava. Comecei a imaginar o Felipe pequeno na frente do fogão. A mão da sua tia na dele mexendo a comida com uma colher de pau. Pareceu muito íntimo pensar nele como criança. Especialmente porque não nos conhecemos. Tipo, eu já vi ele dando entrevistas, ele era um chef famoso. Eu sabia que ele se achava. Provavelmente era arrogante. Eu esperava que sua comida fosse, sei lá, preciosa, intocável. Mas o que estava comendo era caseiro, era familiar. 

Abri a varanda para ver a vista do mar. 

- Nossa! Tá frio. 

- Bom dia. 

- Ah oi! Bom dia. 

- Toma, café. Já tava fervendo.

Ele me deu um copo com café e puxou uma cadeira no deck de madeira - paralelo aonde estava, a alguns passos de distância. 

Estávamos a sós. Completamente quietos, a não ser o som do mar e as gaivotas no fundo. Eu comecei a passar a mão nas minhas tranças, tentando olhar para ele sem que ele percebesse. Mas assim que meus olhos pousaram em seu rosto, vi o canto da sua boca se curvar para cima, só um pouquinho. 

Como se ele estivesse guardando um segredo. 

Eu olhei pra frente rápido. ‘Ai meu Deus, ele tá olhando pra mim também?’. Eu senti uma pergunta surgindo na minha cabeça. Mas quando eu fui perguntar, ele levantou. 

Foi assim por alguns dias. Ele fazia como se fosse me perguntar algo e aí saia de perto. Era como se ele estivesse lembrando da regra que eu impus e eu lembrasse que não tinha jeito de não quebrar. A gente não falou nada um com o outro até um dia particularmente chuvoso. Eu entrei em um café na cidade para ter um pouco de espaço, mas o lugar tava lotado. 

- Sofia!

- Ah oi! O que você tá fazendo aqui?

- Posso sentar?

- Claro, senta aí.

- Tá um pouco apertado, deixa eu ir pra lá

- Ah, obrigada.

Eu bebi um gole do meu café e olhei para longe dele. Quando olhei, vi uma mulher virar rápido como ela estivesse nos observando. Eu percebi que as pessoas não estavam olhando pra gente ou pra mim. Elas queriam vê-lo. 

- É sempre assim?

- Tô acostumado. 

- Sério?

- É, tipo, é esquisito, mas acho que acostumei. Sempre tem pessoas ao meu redor. Mas são poucas que confio.

Dei uma risada. 

- É, devo me considerar sortuda por poder sentar com você.

- Ok. Soou errado e narcisista. Eu não quis dizer daquele jeito.

- Eu sei como é. Eu tinha muitos amigos falsos no trabalho. Eu tive que esperar eles irem embora. 

Ele sorria para mim enquanto conversávamos. Como se ele tivesse um segredo esperando para ser contado. Assim que eu parava de falar, ele me fazia uma pergunta. Geralmente eu não consigo baixar a guarda com as pessoas. Como se tivessem testes e marcos antes de eu falar tudo. Mas com ele, não existia nenhum teste, nenhuma prova. Ele pulou tudo. Eu sentia que, embora pudesse estar revelando muita coisa, era difícil de parar. Como seu tivesse tirado o freio e estivesse descendo uma ladeira rápido de encontro a ele. 

- Oi, nós gostaríamos de avisar que estamos fechando - a garçonete apareceu, nos assustando.

- Opa! Sim claro - respondemos, rindo e sem graça. Não vimos o tempo passar. 

Pagamos e levantamos. Tentei ir na frente. Ele disse que me acompanhava. “É entediante ir a pé sozinho”. Concordei. Entrei no carro.

O silêncio entre nós veio de volta, mas não era mais confortável. Eu comecei a olhar pro meu celular procurando uma distração. Eu nem me toquei que tava fazendo isso. 

- Você tá esperando uma mensagem ou algo do tipo? 

- Por que?

- Você não para de olhar para seu celular. 

- Ah! Não. Meu celular é carente. Ah! Olha a esquina da casa ali na frente. 

Ele parou o carro, mas nenhum de nós se moveu. Meu coração começou a acelerar, como um tambor. Tão alto que eu jurava que ele conseguia escutar. 

Ele me beijou. Rápido, com sede, com vontade. Eu na mesma intensidade. 

- Para. Não consigo mais.

- O que?

- Eu não consigo explicar. Mas não consigo fazer isso agora.

 

Na continuação do conto, Felipe e Sofia não conseguem mais ficar longes um do outro - a química entre eles transborda. 

(Veja a continuação do Conto Cinco Anos)

 

Tradução livre de podcast publicado originalmente no Dipsea. Escute o áudio original.

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