Ejaculação feminina: mitos, tabus e opressões a respeito do “squirt”

Existe? É lenda? Se é real, como ocorre? Todas conseguem ejacular? E, ao ejacular, sentem mais prazer? Tiramos essas e outras dúvidas neste artigo, com entrevista da especialista Sue Nhamandú

Não é xixi. A ejaculação feminina — também conhecida como squirting, no termo em inglês — é cercada de mitos e tabus, mas talvez a comparação com a urina seja o maior deles. Tal capacidade fisiológica é real, apesar de pouco estudada pelo mundo científico e ainda quase nada abordada dentro de nossas rodas de conversa. Embora rara, ela é um fenômeno natural que merece, sim, nossa atenção.

Vale dizer, antes de tudo, que ejaculação feminina e ejaculação masculina são acontecimentos diferentes entre si. Aliás, a ciência sempre escreveu a história dos nossos corpos por meio do que eles tinham de igual ou de faltante em relação aos corpos masculinos. A ejaculação feminina é um fenômeno fisiológico involuntário, que acontece quando há alta estimulação e excitação, fazendo com que a musculatura do assoalho pélvico se contraia e que, com isso, haja a possibilidade de liberar ou esguichar fluidos a partir da vulva. Se em pessoas com pênis o esperma é liberado junto à ejaculação, em pessoas com vulva não há a presença de sêmen.

Para Sue Nhamandú — doutoranda pela UFF, mestre em filosofia, Scholar bolsista Erasmus Mundus, vencedora do prêmio select de educação e terapeuta com atendimento online —, há, ainda, uma outra preocupação que precisa ser levada em conta: “O squirting se popularizou pela pornografia. Por isso, ainda hoje, é mais conhecido do público masculino — que é quem mais consome esse tipo de conteúdo. Como consequência disso, dessa falta de informação, não temos consciência de se a ejaculação feminina é real, se realmente acontece aquilo que estamos vendo nos pornôs, se ela existe daquela forma mesmo. Há uma desinformação acerca daquilo que seu corpo é capaz de fazer e dos prazeres que é capaz de proporcionar. Isso, para mim, é muito grave porque ter prazer é um direito. O motivo desses corpos estarem afastados desse prazer é político”, explica. 

Em Ruanda, uma técnica milenar ensina os caminhos da ejaculação feminina. Em 2016, o documentário Sacred Water, mostrou ao mundo a relação sagrada dos ruandeses com o prazer das mulheres. Por lá, acredita-se que é o gozo delas que mantém rios e lagos bem alimentados.

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SACRED WATER / L'EAU SACREE from olivier jourdain on Vimeo.


O segredo para atingir as águas sagradas estaria nos movimentos. A Kunyaza é uma das técnicas ensinadas a homens e mulheres por lá. Outro aprendizado repassado é o Gukuna, uma forma de alongamento dos pequenos lábios que daria, supostamente, ainda mais prazer às mulheres e que as fariam alcançar uma determinada ejaculação feminina jamais vista em outras culturas, chamada Kunyara, e que se diferenciaria, inclusive, do squirting. “Em Ruanda, vê-se esse movimento das mulheres mais velhas ensinando mulheres mais novas a se tocarem, massagearem. E aí percebemos mais claramente como faz parte do processo patriarcal capitalista esse distanciamento dos prazeres das corpas femininas”, complexa Nhamandú.

MAS, AFINAL, COMO A EJACULAÇÃO FEMININA OCORRE? 

Quando as paredes da vagina e dos músculos perineais se contraem intensamente, a esponja uretral é estimulada e libera um líquido. É essa esponja — que alguns chamam de ponto G, outros de próstata feminina —, localizada ao lado da uretra da mulher, as grandes responsáveis pelo fluido da ejaculação feminina. Estudos recentes apontam tal esponja, aliás, como parte do complexo do clitóris, mas independente de como a denominam, o sabido é que é um tecido ao redor da uretra. Quando você fica excitada, o clitóris e a esponja uretral incham e ficam mais sensíveis — como uma ereção da sua vagina. Dentro e ao lado da uretra, encontram-se glândulas, chamadas parauretrais, e elas podem se encher de fluido conforme são estimuladas. É esse líquido que é expelido no squirting. Ainda não há consenso entre a comunidade científica a respeito da composição do fluido, mas é sabido que ele pode variar de tonalidade, de esbranquiçada à transparente, e que pode, sim, ter um odor similar à urina, se, ao ser eliminado pela uretra, for diluído em algum resquício de urina que esteja no canal.

Muitos defendem, ainda, que o líquido ejaculado tem relação com a lubrificação vaginal, mas não é verdade, já que a lubrificação é produzida antes do orgasmo, nas glândulas de Bartholin, e a ejaculação acontece só depois, no clímax do contato íntimo.

E QUAL A FUNÇÃO DA EJACULAÇÃO FEMININA?

“A função da ejaculação feminina, além de resfriar o corpo, é manter os canais limpos, relaxar e distensionar o corpo para que ele consiga atingir novos orgasmos e liberar ocitocina e serotonina a fim de manter nossas mentes saudáveis. Também existem algumas indicações nas leituras que, talvez, haja, ainda, a função fisiológica de ajudar a manter úmidos os espermatozóides e auxiliar aqueles que são ejaculados ao redor da vulva a entrarem na vagina. De qualquer forma, o que fica mais evidente é que a função básica das Glândulas de Skene é a de fornecer prazer”, afirma Nhamandú.

 


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TODAS AS MULHERES CONSEGUEM EJACULAR?

Apesar de todas as mulheres possuírem as glândulas de Skene, a ejaculação feminina não é unanimidade. Como explicação, alguns defendem que a capacidade ejaculatória pode variar de acordo com a anatomia de cada mulher e a posição das glândulas. Outros apontam a questão psicológica como fator predominante. Assim, quanto mais relaxadas estivermos, maior será a intensidade das contrações durante o orgasmo e maior a possibilidade de a ejaculação acontecer. Em casos assim, em que o nervosismo e a ansiedade estão no comando, é possível aprender a ejacular por meio de técnicas de relaxamento e respiração.



“Ejacular acontece com algumas pessoas e não com outras; Pode ser que todos que têm uma vulva tenham a capacidade de esguichar / ejacular, mas não há como saber disso e, mais importante, não é algo que todos estejam interessados.”
Kitty May, diretora para a Educação e Divulgação comunitária na Other Nature, em entrevista ao site da plataforma norte-americana Clue.



QUEM EJACULE SENTE MAIS PRAZER?

Não. Estudos comprovam que orgasmo com ejaculação não é necessariamente mais poderoso que orgasmos sem o squirting. Não há nenhuma pesquisa científica que ligue a ejaculação feminina ao aumento do prazer.

EJACULE COMO UMA MULHER — MAS NÃO FIQUE PRESA A ISSO


"Precisamos lembrar das diferenças entre o prazer, o orgasmo, o gozo e a ejaculação. Você pode sentir prazer sem ter orgasmo. Você pode gozar na vida, e não apenas no sexo. Gozar é se deleitar, satisfazer. Você pode ter uma relação prazerosa, ter até orgasmos, independente da ejaculação. Para a maioria de nós, pessoas com vulva, a ejaculação está desassociada da intensidade do prazer e dos orgasmos. Não é porque nunca ejaculou que está sentindo menos prazer. E nem por isso a sua relação é 'um espetáculo menos interessante'. Precisamos tomar cuidado com o imaginário da pornografia e o risco de transformar a nossa intimidade em uma performace, sem sensação nem sentimento, com metar e objetivos a serem cumpridos."
 Marilia Ponte, fundadora da Lilit e educadora sexual em formação 

Não há nada de errado ou de vergonhoso no squirting, e também não há nada de errado ou de vergonhoso em não ejacular. É importante que não tornemos a ejaculação feminina mais uma corrida de performance no sexo. “Se o squirting vira uma meta, ele deixa de ser um resgate do prazer para se tornar uma cobrança. Essa é, também, uma das preocupações que surgem quando são os homens os que mais conhecem, por meio do pornô, esse fenômeno, é possível que eles passem a cobrar de suas parceiras ou de seus parceiros quando homens trans. A ejaculação não é uma necessidade da vida sexual, ela é uma consequência de nos autoconhecermos. Trocar, relacionar-se, doar e receber prazer, essas sim são as metas”, finaliza Nhamandú.





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