O ponto G não existe

Era uma vez, em 1982, um conceito do sexo. E, no mesmo ano, esse conceito mudou radicalmente. 

O motivo? Seu clitóris - aquela protuberância na sua vulva, em cima do seu canal vaginal. Os cientistas, as revistas, os filmes e a indústria de vibradores correram para anunciar. Os educadores sexuais começaram a ensinar que ele era a chave para o “misterioso” orgasmo feminino. E assim começou a época que nós começamos falar abertamente sobre ele nos almoços com as amigas. 

Experimente tocar nele agora. Veja o que acontece.

Qual o tamanho? Ele fica mais em baixo ou mais pra cima? É liso ou têm textura? Dá uma sensação boa quando você encosta?

E como foi difícil a ciência encontra-lo. Lá em 1982, as revistas falavam para as mulheres agachar para ser “mais fácil” de enfiar dois dedos no canal vaginal e fazer um movimento de vai e vem. Hoje, pesquisando no Google, encontramos vários mapas indicativos (a pergunta “onde fica o ponto G?” é pesquisada 100 vezes mais que o Michael Jordan e o Michael Jackson).

A economia do ponto G está prosperando: existem vibradores de ponto G, camisinhas de ponto G, lubrificantes para o ponto G, workshops sobre o ponto G e até bebidas que dizem estimular o ponto G. 

Ele está no famoso dicionário Merriam-Webster: o ponto G é retratado como uma “tecido interno altamente erógeno”. 

Então porque quando falamos com a mulher que ajudou na sua descoberta ela nos disse que ficamos obcecados com a coisa errada? 

Essa mulher é a pesquisadora PHD Beverly Whipple. Ela e um grupo de pesquisadores que cunharam o termo “ponto G” no começo dos anos 80. Eles nomearam o ponto, que inicialmente tinha sido descrito como um “feijãozinho sensitivo” pelo pesquisador alemão Ernst Gräfenberg (sim, um cara). E foi assim que a parte mais falsamente nomeada dos nossos corpos surgiu no mundo científico 

De acordo com nossa pesquisa, 11% das mulheres evitam sexo porque não conseguem achar o ponto G. Honestamente, as coisas começaram a sair do controle assim, como conta Whipple. A equipe dela não afirmou que toda mulher tem necessariamente um ponto G - “As mulheres são capazes de sentir prazer das mais variadas formas. Cada um é único”. E mesmo que tenha existido uma analogia a um feijão, eles não estavam se referindo a um ponto fixo. Eles estavam falando de uma área que podia dar prazer para a mulher. Mas a imprensa preferiu a narrativa mais atraente e anunciou como uma cura para todos os problemas sexuais. 

Os pesquisadores fizeram a mesma coisa. Em 2012, um estudo publicado no The Journal of Sexual Medicine afirmou que era óbvio que o ponto G era real. Só não era um feijão. Era uma área de 81 por 36 milímetros parecida com uma corda, com um saco anexo no formato de uma uva azulada. Essa notícia veio do cirurgião ginecologista Adam Ostrzenski, depois que ele estudou um cadáver de uma mulher de 83 anos (logo depois ele começou a vender cirurgia plástica para criar um ponto G ou aumentar o prazer). Ao longo dos anos, vários outros pesquisadores descobriram que o ponto G era também várias outras coisas: “um acúmulo de nervos”, “a parte esponjosa da uretra", “uma glande” e por aí.  

Mas o mistério continuava: as mulheres não achavam o que os experts diziam para elas procurarem. Vários testes e pesquisas foram feitos, ultrassons e exames de imagem com biomarcadores para mostrar exatamente onde ficava o ponto G. E nenhum resultado significativo.

Em 2006, uma biópsia de várias vulvas de mostrou inconclusiva. Em 2012, um grupo de médicos revisou todas as pesquisas e dados já registrados e não achou evidências do ponto G. Em 2017, os maiores e mais recentes estudos com cadáveres também não provou nada. 

“Não é como tocar no botão de um elevador ou um interruptor” afirma Barry Kokisaruk, neurocientista na Rutgers University. “Não é uma coisa única”.

44% das mulheres se sentiram frustradas, confusas ou com ansiedade enquanto tentavam localizar seu ponto G - “Eu não acho que temos nenhuma evidência que o Ponto G é um ponto ou uma estrutura.”, conta Nicole Prause, PHD e neurocientista que estuda orgasmos e o estado excitatório. “Eu nunca entendi porque era interpretado como um novo órgão sexual. Você não pode generalizar a vulva: não existe uma consistência de padrões em pessoas com vulva e onde exatamente elas sentem prazer”.

É claro, segundo ela, que algumas mulheres podem ter área dentro do seu canal vaginal que contenha algumas áreas super sensíveis. Mas algumas mulheres também relatam seguir os tutoriais de achar o ponto G e sentir um desconforto ou vontade de fazer xixi. Algumas não sentem nada. Porque provavelmente pra elas, não tem nada ali. 

Agora a parte mais difícil de toda essa história é que embora não exista evidência científica, existem muitas pessoas que acreditam piamente no ponto G, muitas delas educadores sexuais. Eles não estão completamente errados. Se uma mulher acredita que achou seu ponto G, isso deve ter mais peso que uma evidência científica. E especificamente se alguém fala que teve uma experiência muito intensa com ponto G, é bem errado querer silenciar a pessoa, como afirma Kristen Mark, educadora sexual na University of Kentucky: “Isso parece retrocesso”. 

Justo. Mas também, como Prause fala, “as mulheres têm direito a uma informação fidedigna dos seus corpos.” Não podemos ter direito ao prazer e também à verdade? 

Como Prause fala (e isso necessita repetição): para algumas mulheres, existe uma sensitividade onde o ponto G normalmente é relatado. Mas para algumas, não existe nada. Ou é mais pra esquerda. Ou é em outros lugares. E esse é o ponto: é ok tudo ser gostoso, não existe um ponto específico. 

O que todos podemos concordar é que precisamos de mais pesquisas. A saúde sexual da mulher é muito mal estudada, e o que temos de material científico beira ao absurdo. Em 2015, Prause tentou fazer um teste na Universidade da Califórnia que iria estudar orgasmos em mulheres vivas. O conselho da Universidade escutou a proposta mas queria uma promessa que as participantes não iriam chegar ao clímax - simplesmente porque eles não gostavam da ideia das mulheres tendo orgasmos nos seus laboratórios. E como você já deve ter adivinhado, o estudo não foi aprovado. 

É verdade, esse novo pensamento sobre prazer feminino vai demorar um tempinho para assentar na cabeça de algumas pessoas. Como aquelas suas amigas que vão almoçar juntas e falam sobre o prazer do ponto G.  Como os homens, que adoram se gabar sobre o conhecimento do ponto G.

Para eles, é vantagem: um orgasmo no ponto G requer penetração: “Se você tem um pênis, é super conveniente para você achar que a maneira da outra pessoa obter prazer é você colocar o pênis em seu canal vaginal” conta Emily Nagoski, PHD e autora do livro “Come as You Are”, um livro que explora a ciência da sexualidade feminina. 80% dos homens disseram para a pesquisa da Revista Cosmopolitan que acreditam que toda mulher tem um ponto G e 60% disseram que é a melhor forma para uma mulher chegar ao orgasmo. 

31% das mulheres contam que os parceiros ficaram frustrados enquanto tentavam procurar pelo ponto G. E assim como foi com as mulheres, o ponto G deu uma mensagem de métrica de performance errônea e a “mensagem cultural que o prazer para as mulheres basta um pênis dentro de uma vagina” conta Nagoski. 

“Nos começo dos anos 80, existia uma pesquisa que deixava o clitóris como protagonista” explica Nagoski “Então veio a pesquisa do ponto G, criando essa pressão para as mulheres terem orgasmos através da estimulação vaginal mesmo que a maioria dos nossos corpos não seja programada assim. E se você se pergunta porque a estimulação vaginal é tão importante assim, é porque coloca como foco o prazer masculino”.

Não bastava a frustração sexual, nós também temos a carga imensa do ponto G derrubada nas mulheres. 

Um fato que podia ajudar a criar um sexo mais igualitário e nos acordar trouxe um efeito colateral muito perigoso: a vergonha.

Mais da metade das mulheres entrevistadas disseram se sentir frustradas ou inadequadas ao saber que outras mulheres conseguem ter orgasmos de um jeito que elas não conseguiam. 11% disseram que esse fato estimula elas não transarem. “Eu tenho amigas que falam que sempre gozam só com penetração e me dizem uma hora vai chegar meu momento. É como se elas fossem mais sortudas!” - conta Alyssa, uma leitora da Cosmopolitan. 

Outra leitora da Cosmo, a Beth, por indicação de um terapeuta sexual, foi para um quarto que parecia a estrutura de uma vulva, com luzes rosadas e baixas, velas acesas ao redor - e como tarefa, tinha que achar seu próprio ponto G. Ela ficou frustrada, seu marido também: embora tivesse orgasmos saudáveis, ela achava que existia algo a mais que ela não tinha acesso. 

82% dos homens acreditam que toda mulher tem um botão mágico. As tarefas de casa do casal foram fazer uma lista de movimentos “infalíveis” sensuais, que ajudariam Beth a encontrar seu ponto G para ela ter um orgasmo diferente de todos os outros que ela já teve. “A noite que transamos de quatro foi terrível. Escutava o barulho de pele batendo e meu marido perguntava se estava funcionando.” Seu marido concordou - foi terrível mesmo. Depois dessa experiência, eles desistiram. 

Outros casais ainda estão procurando: 22% dos caras dizem que achar o ponto G de uma mulher é o objetivo principal do sexo, o que explica o porque de 31% das mulheres terem que lidar com parceiros exaustivos. Prause se preocupa com essa informação. “Você escuta caras falarem coisas tipo ‘Minha última namorada não me dava tanto trabalho’ ou ‘Você demora muito pra gozar’ ou até mesmo ‘Isso funcionou na última pessoa que transei’. Isso faz com que as mulheres se questionem se são normais. E nós odiamos isso!”

É por isso que paramos com a busca do ponto G. Nós estamos de saco cheio com esse “ponto” e nós pedimos desculpas, de novo, por ter trazido esse assunto no passado. E a não ser que os pesquisadores façam uma descoberta sem precedentes, a Cosmopolitan não vai mais publicar guias e posições para achar o ponto G. 

“O que seria realmente revolucionário para a vida sexual das mulheres seria engajar com o que a pesquisa já achou: os maiores medidores da satisfação sexual são o nível de intimidade e conexão” - argumenta Debby Herbenick, professora e pesquisadora na Indiana University School of Public e no Kinsey Institute.

O mundo científico está em uma revolução tentando renomear as pesquisas do ponto G como algo mais científico e preciso. Whipple diz que é uma região. Pesquisadores italianos sugeriram renomear para algo como “complexo clitoriano vaginal e da uretra”. Herbenick tem algumas sugestões: “Primeiro, não deve ter um nome masculino. Estamos falando do corpo da mulher, e não é porque um homem escreveu sobre isso que ele tem que ser o primeiro a entender ou a vivenciar isso.”. Hoje em dia ela chama a área de “zona”. 

E nós vamos começar uma nova era sem conselhos sobre o ponto G, com reportagens mais inteligentes. “Se você se sente bem, você está fazendo certo” fala Nagoski. Pode chamar do que quiser, mas o ponto G não existe. 

Escrito por Elizabeth KieferTradução livre de artigo publicado originalmente na Cosmopolitan. Leia o artigo original.

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1 comentário

Muito boa explicação…a mulher tem que se tocar pra se conhecer…o clitóris é muito mais que uma “ponta” externa…se introduzir um dedo inclinado estimulará também ,ou seja,por dentro e por fora…são 8 mil ondas nervosas …se tocar é importante nós temos um bullet maravilhoso para nos ajudar😉.

Edeilza 08 janeiro, 2021

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